Olha só o que a gente fazia até ontem

Se você já tentou ligar uma VNet do Azure com uma VPC da AWS de forma privada, sabe o perrengue. ExpressRoute de um lado, Direct Connect do outro, um cage na Equinix no meio, sessões BGP que ninguém do time entende direito, dois NOCs diferentes para coordenar mudança. É o famoso imposto multicloud: você paga em banda, mas paga muito mais em dor de cabeça operacional.

Agora a Microsoft e a AWS resolveram sentar na mesa e padronizar isso. O Azure Multicloud Interconnect (lançado junto com o AWS Interconnect-multicloud) usa uma spec Open API comum aos dois provedores. Traduzindo: você provisiona a conexão privada de forma programática, sem montar o Frankenstein de roteamento na mão.

O Robert Kennedy, VP de Network Services da AWS, foi direto: o jeito antigo era "clunky" (desengonçado). O novo modelo entrega MACsec ligado por padrão, SLA de 99,99% (quatro noves) e até 100 Gbps por interconnect já no GA.

Isso não é rebranding de ExpressRoute, não. É um contrato operacional diferente entre duas hyperscalers.

Para quem monta pipeline de treino de IA que atravessa nuvens (dados no Azure Data Lake, GPUs na AWS, ou o contrário), é a primeira vez que a camada de rede para de ser o gargalo do diagrama.

Azure and AWS cloud icons connected by a private high-bandwidth interconnect line for multicloud AI workloads Algorithm Concept Visual

O que muda de verdade na sua arquitetura

Antes, um caminho privado Azure↔AWS era mais ou menos assim:

[VNet Azure] -- [ExpressRoute Gateway] -- [MSEE] -- [NNI da operadora] -- [Equinix Fabric] -- [DX Location AWS] -- [DX Gateway] -- [VPC AWS]

Cada salto é um ticket, uma janela de mudança e um fornecedor para gerenciar. Com o Multicloud Interconnect, o modelo mental encolhe:

[VNet Azure] -- [Azure Multicloud Interconnect] == [AWS Interconnect-multicloud] -- [VPC AWS]

Propriedades técnicas principais

PropriedadeValor
Banda máxima no GA100 Gbps por interconnect
CriptografiaMACsec, ligado por padrão
SLA de disponibilidade99,99% (quatro noves)
ProvisionamentoSpec Open API nos dois lados
Integração AzureNativa com Azure Private Link
EscalaExpansão dinâmica sem redesenho

A integração com Azure Private Link é o recurso mais subestimado. Na prática, um consumidor na AWS consegue acessar um serviço PaaS do Azure (Storage, SQL, Key Vault) via private endpoint sem expor IP público e sem ter que montar uma hub VNet só para intermediar. Isso reduz muito o raio de explosão em revisão de segurança.

Um esboço de Terraform (conceitual)

# Lado Azure: provisiona o endpoint do interconnect
resource "azurerm_multicloud_interconnect" "para_aws" {
  name                = "mci-para-aws-prod"
  resource_group_name = azurerm_resource_group.net.name
  location            = "brazilsouth"
  bandwidth_gbps      = 100
  peer_provider       = "AWS"
  # MACsec já vem ligado; não desligue em produção
}

# Lado AWS: espelha o recurso via Open API
resource "aws_interconnect_multicloud" "para_azure" {
  name           = "mci-para-azure-prod"
  bandwidth_gbps = 100
  peer_provider  = "AZURE"
  peer_id        = azurerm_multicloud_interconnect.para_aws.id
}

Os nomes de recurso acima são ilustrativos — confira a doc atual do provider, porque isso é feature de dia de GA e a nomenclatura ainda está assentando.

O ponto arquitetural importante: você tem um control plane por nuvem, não um control plane unificado. Não existe dashboard único. Existe um contrato comum. Essa distinção é ouro na hora de escrever runbook.

Se você curte esse padrão de "padroniza a interface, mantém o interno separado", vale dar uma olhada em como isso aparece em retrieval unificado com SilverTorch. Mesma filosofia, camada diferente da stack.

Network engineer diagramming Azure Multicloud Interconnect private routing to AWS VPC endpoints Development Concept Image

Os limites que o anúncio não conta

Antes de sair cortando seus circuitos de ExpressRoute, seja honesto sobre o que isso não resolve.

1. Continuam sendo duas nuvens. Você ganha um cano rápido, não um IAM unificado. Entra ID e IAM continuam universos separados. Federação de identidade cross-cloud ainda é problema seu.

2. Custo de egress não muda. Egress da AWS para Azure continua sendo tarifado. O interconnect simplifica o caminho, não a conta. Para workload de treino de IA que move terabytes por dia, faz a matemática antes de assinar.

3. Pareamento por região no lançamento. O GA fala em conexão ponto-a-ponto. Se você precisa de mesh em três regiões e duas nuvens, vai compor vários interconnects e voltou a desenhar topologia na mão.

4. Open API ≠ open source. A spec é publicada, mas a implementação é proprietária nos dois lados. "Open" aqui significa "interoperável", não "inspecionável".

5. Lock-in muda de lugar, não desaparece. Você agora aposta que o roadmap de interoperabilidade Microsoft-AWS vai continuar alinhado. Se um lado despriorizar a spec, você fica com um circuito tecnicamente no ar, mas estrategicamente órfão.

Quando faz sentido

  • Você tem pipeline de IA ou dados genuinamente cross-cloud com tráfego alto e constante.
  • Seu time de segurança bloqueava multicloud por causa de endpoint público.
  • Você já está comprometido com as duas hyperscalers por 3+ anos.

Quando esperar

  • Tráfego cross-cloud é esporádico e baixo (usa endpoint público + Private Link, sai mais barato).
  • Você ainda está decidindo qual nuvem vence para seu workload principal.
  • Precisa de mesh multi-região desde o dia zero.

Para ver como esse tipo de arquitetura "uma interface, várias implementações" evolui em produção, o breakdown da arquitetura de retrieval do SilverTorch é um paralelo útil — os mesmos trade-offs entre abstração e controle aparecem lá.

Server racks in Azure and AWS datacenters linked via 100 Gbps private interconnect for AI training data transfer IT Technology Image

O que fazer na prática agora

Se você é Azure-first com pegada crescendo na AWS (ou o contrário), a sequência pragmática é:

  1. Inventaria seu tráfego cross-cloud. Se for menos de algumas centenas de GB/mês, isso é overkill. Se for TB/dia, continua lendo.
  2. Prototipa um interconnect entre uma subscription Azure non-prod e uma conta AWS non-prod. Valida o fluxo de provisionamento via Open API de ponta a ponta antes de confiar.
  3. Testa a integração com Private Link especificamente. É o recurso que mais muda sua postura de segurança e o que mais tende a ter arestas no GA.
  4. Modela custo de egress por 12 meses no seu crescimento projetado. O interconnect não muda o medidor.
  5. Escreve o runbook de "e se a AWS despriorizar isso". Tenha fallback de ExpressRoute documentado, mesmo que nunca use.

Para ir mais fundo

  • O texto oficial da Microsoft sobre o lançamento: Introducing Azure Multicloud Interconnect for AWS — fonte primária deste artigo.
  • Módulo do Microsoft Learn para provisionamento hands-on.
  • Anúncio paralelo da AWS sobre o Interconnect-multicloud.

A história maior aqui não é o número de 100 Gbps. É que duas hyperscalers concordaram numa spec de API compartilhada para uma primitiva de rede. Se esse padrão pegar — e a Microsoft está sinalizando claramente que quer estender para operadoras e redes metro — os próximos cinco anos de arquitetura multicloud vão parecer estruturalmente diferentes dos últimos cinco. Vale acompanhar, vale prototipar, mas não vale apostar toda a estratégia de rede no mês um.

Este conteúdo foi elaborado com o auxílio de ferramentas de IA, com base em fontes confiáveis, e revisado pela nossa equipe editorial antes da publicação. Não substitui o aconselhamento de um profissional especializado.